sábado, 10 de dezembro de 2011

Vago nua no espaço


Perdi o sono. Tentei ouvir o maior tradutor do Dostoiévski em português mas as palavras entraram e saíram sem sentido aqui dentro. Há certas coisas que desarmam a gente.
Estava aqui, tranquila, sossegada, tentando me acalmar, depois desse susto muito louco que tomei, quando, pela primeira vez na vida, experimentei a possibilidade da morte.
Ainda desnorteada, sou tomada de assalto por suas palavras. Não compreendo ao certo o que se passou.
O dito antes já não tem mais valor. Agora mesmo tudo se perdeu.
Surpresa que vem e me leva embora a outro lugar...saio de órbita e estou a vagar.
Sentimentos nus, palavras ao vento.
É ferida aberta, que sangra a carne e corta o coração.
Sim, tudo se perdeu. E eu não me dei conta.
Minha alma imoral transita entre céu e inferno.
Meus olhos, ao longe, nada vêem.
Enfim, todas as possibilidades do amor se findaram.
Senti um soco em meu peito.
Ou um corte seco, terá sido?
Não sei...
não sei de mais nada.
Meu choro não tem voz.
"Só sei que nada sei"


terça-feira, 11 de outubro de 2011

Pra clarear


Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite. (Clarice Lispector)


Acordei com o vento berrando em meus ouvidos. Pensei que era muito cedo para levantar e não queria. Sua força lá fora me fez sentir, mais uma vez, o poder das manifestações da natureza. Me fez sentir pequena. Me fez sentir limitada.

Portas e janelas batiam em toda a casa. Levantei a contragosto, afinal, demorei tanto adormecer que só Deus sabe. Fui fechando cada porta e cada janela. Eu havia feito o mesmo ontem a noite, depois daquela mensagem. Não é fácil fechar as portas e as janelas da vida. É doloroso demais.

O vento lá fora é potente. Ele prenuncia a tempestade. Hoje é dia de festa e mais uma vez, compreendo que não temos poder sobre nada. Podemos organizar tudo, meticulosamente. Mas não podemos controlar nada. Existem coisas que nos fogem ao controle. Que não dependem de nós. Assim é a vida, assim são os sentimentos.

Uma amiga sempre me diz: “- Percebi que não tenho controle sobre nada”. Hoje, eu pude comprovar isso, mais uma vez. Apesar do esforço empreendido, falhei. Ou falhamos?

A vida, assim como a natureza, depende de diversos fatores para estar nos eixos. Para que se obtenha êxito.

É tempestade lá fora. É tempestade em meu coração. É água jorrando para lavar e limpar. As dores, os amores, meu caminho. Como disse o Lobão: “Chove lá fora e aqui, faz tanto frio”.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Pro sol nascer de novo


-Vocês cuidem bem uma da outra, na minha ausência.

A voz do outro lado da linha estava serena e clara o suficiente para eu compreender que tudo estava realmente bem. O nosso mano do coração, embora mais distante fisicamente, continuava a ser a mesma pessoa zelosa e carinhosa de sempre. Também admirava a nossa amizade, achava bacana a proximidade entre mim e ela.

Eu já estava deitada, quando ouvi a chave rodar na porta e seus passos caminharem até o meu quarto. Era ele, ao telefone.O curto diálogo foi o suficiente para me deixar reflexiva e nostálgica.

Lembrei de cenas, momentos vividos. Lembrei dos nossos finais de semana em casa, cozinhando, tomando cerveja, batendo papo, ouvindo Candeia, Gonzaguinha e Janis Joplin. Me deu a maior saudade.

Lembrei das nossas andanças pela cidade, da Lapa ao Arpoador. Da Tijuca a Niterói. Lembrei com saudade do velho ateliê em Santa Tereza. Do samba da Pedra do Sal, sempre almejado, nunca realizado. Dos planos Para Ibitipoca. Mas, mais do que isso tudo, lembrei do quanto eu e ela éramos tão próximas e o quanto estávamos tão distantes.

Em nossa querida casa, antes não havia paredes entre nós. Era como se todos os aposentos fossem um só. Mas agora não. Estávamos afastadas, as paredes a nos separar e colocar limites e espaços. Agora as portas estavam trancadas. Era cada uma por si.

Lembrei com carinho da irmã de antes. Lembrei de como ela era doce e nada amargurada. Lembrei de como era espirituosa, bicho grilo, tranquila. Hoje seu ar era mais pesado. Estava cansada demais, era nítido. Alma cansada, corpo cansado. Incômodo indisfarçável nos olhos, no rosto. Carregava consigo um ranso que parecia não fazer parte de sua pessoa. Já não mais a reconhecia em certas atitudes e posições.

Pensei novamente nas palavras dele. Elas fizeram nascer em mim outras palavras. Interrompi meu sono, levantei da cama e sentei à escrivaninha. Era preciso reverberar meus sentimentos depois de tanto tempo.

Resolvi dar mais uma chance a mim e a ela e meus incômodos começaram a se dissiparem. Eu tentaria mais uma vez uma aproximação. Segundas chances são necessárias.

Escrevi meu texto e fui dormir tranqüila. Amanhã o sol nasceria outra vez, trazendo os bons ventos que sopravam amor, serenidade e amizade.

Então eu percebi o quanto aquele mano era importante para mim, para nós, e senti uma vontade doida de fazer mais uma daquelas velhas reuniões regada a música, alegria, cinema, fotografia e discussões políticas e pacíficas.

Pude experimentar, mais uma vez, o quanto a vida é linda e o quanto devemos tornar inesquecíveis cada momento. Que seja doce! - parafraseando Caio F.

“Mas é claro que o sol vai voltar amanhã”

(Renato Russo)

terça-feira, 28 de junho de 2011

Confissões numa tarde de inverno (Ou "Um desabafo")



Expectativas me tomam de assalto. A esperança bate a porta, contra tudo e quase todos. Em silêncio, mentalizo tudo de bom que há de vir. Não desistir é um dos caminhos.

Cobranças, pressões, agressões de todos os lados. Vitimizar-se não é nosso objetivo. Sem dramas, também. Mas é a dura vida real. Tentativas vãs, certezas e calmarias que nunca chegam. É preciso esperar o tempo mas hoje estou cansada de esperar por ele. Estou revoltada.

Ansiedade e assombro nos tomam por vezes. Como responder a tantas acusações estúpidas? Como compreender essas atitudes que nos corroem e ferem nossas almas? Como compreender comportamentos tão diferentes de um dia para o outro?

Como continuar sensível diante desse mundo cruel? Como não ter uma pedra no coração depois de tanta frieza, indiferença, descaso?

Eu sei a resposta. Porque o amor ameniza todas as minhas dores. Porque se eu caminhei até aqui, essa nuvem de cor escura se dissipará e todas as dificuldades em nosso caminho serão suplantadas.

De que seriam nossas vidas sem o amor? Quantas vezes já me abri, aqui neste espaço, sobre as dores que vivi por conta do amor? Mas hoje é o amor que me sustenta. É amar e ser amada o alimento da minha alma. Chove lá fora e o frio é cortante, mas aqui dentro o seu amor me aquece. A minha alma fica firme. Há uma tristeza aparente, mas aqui dentro, há um alento desde que você chegou.

Nos últimos tempos, re-conheci pessoas que eu achava já conhecer relativamente. Máscaras caíram. É doloroso demais mas tem o lado bom pois preciso conhecer o terreno em que piso. Não que eu vá ficar na defensiva o tempo inteiro, mas é preciso ser vigilante.

E o tempo vai passando, e essas pessoas continuam se mostrando. Sim, todos temos fragilidades, todos temos defeitos. Entretanto, o primeiro passo para a mudança é reconhecer o erro em nós mesmos. A partir daí, podemos modificar os padrões de comportamento e seguir rumo ao novo ser que almejamos.

Olho e vejo uma humanidade atormentada demais, cega demais, incapaz de reconhecer seus próprios erros. E me sinto um peixe fora d’água pois tudo que tenho feito nos últimos anos é, ao menos, tentar mudar. Reconhecer meus erros para ser mais.

Cansei dos discursos falidos, das cobranças de afeto e amor sem reciprocidade. Cansei de ser julgada e incompreendida e hoje me despeço do tempo que ficou para trás.

Agradeço ao universo por ter ouvido aos meus prantos e respondido com o envio uma bonina, dessas, assim, bem delicadas, que veio florescer os meus dias e fortalecer a minha alma e o meu coração. A noite ela vira estrela e transforma o meu céu, deixando-o mais colorido e iluminado do que o habitual.

Olho a fotografia de Javier Barden e lembro o caminho que escolhi para minha felicidade.

“Tudo passa, tudo passará.” (Renato Russo)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Velha Infância


Poeminho do Contra

Todos esses que aí estão

Atravancando meu caminho,

Eles passarão...

Eu passarinho!

(Mário Quintana, in Prosa e Verso, 1978)



Para Kika, com amor


Hoje acordei pensando nos tempos de infância. Nessa época da vida, temos muitos desejos de ordem material, nem sempre atendidos por nossos pais, tios, amigos da família.

Lembrei das muitas vezes que manifestei a vontade de ter um brinquedo, um objeto qualquer que fosse, na altura dos meus primeiros anos e, quando não realizadas, culminavam em abrir o berreiro, outras, em me conformar, depois de levar um papo reto com explicações vãs dos meus pais ou de quem estivesse cuidando de mim. E ainda tinha outras vezes, em que eu podia ansiar por algum objeto não compatível com a minha idade de criança, mas que eu queria muito, porque queria, por ter, sem explicações.

Recordei-me então, da tia mais presente nas minhas memórias de infância, alguém que muito acrescentou a minha formação acadêmica, mas, principalmente, como pessoa.

Eis que no ano de 1994, aos meus dez anos de idade, estava na casa da minha avó, onde essa tia também morava e percebi que ela havia comprado algumas agendas para presentear. Chamaram-me atenção, aquelas capas vermelhas, eu adorava agendas – tive muitas ao longo desses 2.7, inclusive, algumas delas guardadas até hoje – e o conteúdo da agenda, algo novo para mim. Era uma agenda especial em comemoração ao genial poeta Mario Quintana.


Porque uma criança de dez anos deseja uma agenda de adulto, especial Mário Quintana? Eu não pedi. Fiz que nem criança. Fiquei namorando a agenda, acho que perguntando para minha tia o que era e o porquê daquela agenda comemorativa, mas não tive coragem de pedir. Nem me senti no direito de pedir. Ela continha frases, citações, trechos da obra do autor ou mesmo as poesias inteiras. Fiquei fascinada com aquilo. Era uma novidade para mim.

No fim das contas, acho que no fim do dia, já na hora de ir embora e certa de que eu não seria uma das prestigiadas , minha tia dirigiu-se até mim e para minha satisfação, me deu a agenda especial do Quintana.

E foi assim, que esse querido autor entrou em minha vida, tenros dez anos de idade e ficou para sempre. Sua literatura se faz presente aqui até hoje e quando visitei Porto Alegre, tive a oportunidade de conhecer o quarto de hotel onde Mário Quintana viveu seus últimos dias. Fascinada, lembro ainda hoje, da cama arrumada, do maço de Carlton sobre a escrivaninha, do par de óculos ali deixados e dos livros a compor o ambiente.

Agradeço a minha tia por satisfazer a minha vontade infantil. Com seu gesto, inclusive com dedicatória na agenda (até hoje guardada), iniciou-me no caminho das letras brasileiras, antes, para mim, pertencentes ao universo adulto e apresentou-me ao Mário Quintana. Ali, a partir daquele instante, tive a oportunidade de passear por suas palavras e compreender a simplicidade e ao mesmo tempo, a erudição de um gênio da literatura brasileira.

Daquele meu desejo infantil, descabido e olho grande, satisfeito por uma tia que sabia lidar com crianças, tinha psicologia e pedagogia para isso, educadora que é, ela me deu um presente que não tem valor material, um presente que vou levar comigo a vida inteira.

"Olho em redor do bar em que escrevo estas linhas.

Aquele homem ali no balcão, caninha após caninha,

nem desconfia que se acha conosco desde o início

das eras. Pensa que está somente afogando problemas

dele, João Silva... Ele está é bebendo a milenar

inquietação do mundo!"


Blog Image: Caricatura encontrada em navegação intergaláctica

terça-feira, 31 de maio de 2011

"Eu gosto de você"




Dia desses, recebi um email, do tipo com apresentações em PPS e que a gente não dá muita bola. No meu caso, dependendo do dia, da hora e do momento, eu abro. Em outros, descarto.

Esse eu resolvi ler. Falava sobre a importância das pessoas expressarem seus sentimentos, no momento em que sentem, dizer a quem se ama que se ama. Na minha vida, isso se manifesta de forma bastante particular.

Fui criada com muito amor e carinho, mas não havia aquelas demonstrações de afeto, beijos, abraços e declarações de amor. Com meu primeiro namorado, eu descobri que o afeto e os sentimentos podiam ser ditos. Juntos, trocamos muitas cartas e declarações faladas, de amor. Era uma novidade muito gostosa para mim.

É curioso, que a intimidade com meus pais era tão pequena, que, para informá-los que eu estava namorando, escrevi uma carta, um comunicado de que agora eu tinha um companheiro. Eu estava na oitava série, terminando o ensino fundamental e tinha 15 anos. Passei a noite escrevendo a carta, e antes de sair, cedinho, antes das sete da matina, deixei na mesa posta de café da manhã e fui estudar. Com um frio na barriga. Na volta, estava ansiosa para saber como havia sido a recepção e minha mãe então, contou que leu a carta e tirou, de perto da xícara do meu pai, com medo dele infartar. Acordá-lo tão cedo, mal sair da cama, uma novidade, ele podia não se sentir bem. Mas depois, mostrou a ele. Lembrei disso agora, resolvi partilhar. Nem tinha muito a ver com o que eu pretendia escrever.

Penso ser importante expressar os sentimentos, através de pequenos gestos, mensagens trocadas, afagos e colos, carinho, presença, cuidado. “Saber cuidar” é o título de um livro de Leonardo Boff que trata do tema do cuidado com a orbe, com o planeta Terra. O cuidado do homem com o planeta. E também do cuidado com o outro.

Nos últimos anos, aprendi muito a amar aos meus irmãos de todo o universo. Respeitar as diferenças. Conhecer mais sobre outras religiões e descobrir que a magia e a comunhão com Deus não se restringe apenas ao meu credo. Amar com todo amor desse mundo as nossas raízes africanas. E reverberar o meu amor. Por todos os lados, onde for necessário.

Nessa onda de expressar sentimentos, recebi uma chamada perdida no celular, de uma grande amiga que talvez esteja num processo de redescoberta ou mesmo descoberta do amor. Ao retornar, ela me disse: “-Liguei para dizer que gosto de você”. Simples assim, porque o amor é simples. Um pequeno gesto que muda tudo, que alegra o dia, deixa a vida mais doce.

Do mesmo jeito que é lindo acordar de manhã, ao lado de quem se ama, ser acarinhada, ser olhada, se perceber num momento de sonho, ainda meio que adormecida, mas se sentir acolhida, confortada, coração feliz. Ser correspondido em afeição é pura poesia, das coisas mais gostosas dessa vida.

À minha amiga, agradeço o singelo gesto que enobrece o meu coração. À minha pupila, obrigada por todo mimo dispensado a minha pessoa, em especial à parceria em relação a minha dieta, nutrindo meu corpo com os mais deliciosos sucos de frutas e minha alma com muito carinho, a ponto de me resgatar da escuridão na qual eu me encontrava. Minha gratidão para sempre. A Deus, agradeço por iluminar a minha vida e me aproximar de pessoas especiais ao longo da trajetória. Ao universo, por conspirar ao meu favor, quando faz o amor se manifestar nas pequenas coisas. Um brinde à vida, um brinde ao amor, nessa terça-feira de sol lá fora, com as melhores vibrações que emanam do meu ser.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Reflexões da média noite


Não, minha pupila. Errante não. O adjetivo não é esse.

A vida dá muitas voltas e nós duas somos a prova viva disso. Experimentamos tempos de paz, depois de muita ausência de luz. Por um momento, nos perdemos em meio a selva, nos sentimos sozinhas, incapazes, impotentes.

Mas no fim do túnel existia uma luz. Estávamos tão acostumadas àquela escuridão vazia e fria, que a primeira tentativa, foi difícil abrir os olhos. Precisamos nos acostumar novamente a condição de que estávamos na presença da luz, que agora nos cegava.

Mas aos poucos, nossas retinas foram voltando ao normal, acostumando-se a condição que outrora um dia havíamos vivido.

Percebemos que aquele caminho de trevas era passageiro. Hoje, vitoriosas, podemos ter orgulho de ter passado por tudo o que passamos. Ficamos mais fortes, amadurecemos.

No meu caso, a paciência foi tremendamente testada. Sinto-me mais tranqüila. Já não surto. Quando os sintomas vêm, eu trato de combater. Descarrego no meu intenso sono. Por isso não largo meu travesseiro. Talvez agora você me compreenda. Eu o carrego porque nele eu adormeço dentro de mim mesma.

O monstro que me assombrava foi embora. Eu mandei ele embora. Eu demorei a perceber que ele permanecia aqui porque eu demonstrava ter medo dele. Quando eu enfrentei, ele percebeu que não adiantava mais perder tempo tentando me assustar e foi assim, saindo de fininho. Porque eu já estava fazendo com que ele se tornasse bom. Aí ele resolveu se mandar, antes que eu o convencesse.

Esse é o caminho, pequena pupila. Suas palavras aquecem o meu coração e me trazem alento. O carinho e o cuidado demonstram a preocupação de quem ama.

Oyá nos proteja. Oxalá nos abençoe. A jornada continua. Amanhã será outro dia. E vai ser lindo, porque eu já estou mentalizando tudo lindo para nós. E chega de fantasmas e medos e arrepios. E sim:

“Que dance a linda Flor girando por aí
Sonhando com amor sem dor, amor de Flor
Querendo a Flor que é, no sonho a Flor que vem
Ser duplamente Flor, encanta,colore e faz bem”

(Maria Gadú)

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Diálogos


- Porque você despertou tão cedo? Ainda são 4 A.M.? – perguntou o coelho.

-Eu perdi o sono. Rolei na cama, não consegui voltar a dormir. – expliquei.

- Mas a essa hora todos dormem. Você não diz sempre que necessita do sono reparador? – quase me censurando.

- Sim, eu já disse isso, alguma vezes, mas em outras a insônia me toma de assalto. Além disso, nem todos dormem. Não ouves os sinos lá fora, a badalar?

- Sim, são os sinos da capelinha. Acho que eles acordam as freiras do colégio.

- Engraçado, vivo aqui há tanto anos e nunca havia ouvido este som.

-O que te preocupas? – perguntou-me, com sabedoria ímpar – São problemas?

Respondi que não. Agora finalmente as coisas estavam voltando ao lugar. Não entendi a perda súbita do sono, especialmente na noite fria e escura.

Pensei nas possibilidades, nos jogos da vida, nas trapaças.

Nesse momento, uma felina de olhos azuis se aproximou, como se me indagasse, também, porque sua dona estava insone. Aproximou-se o máximo que pode, pediu carinho e se aninhou ao meu braço, ficando debruçada sobre a tela.

Ainda tentei buscar motivos e explicações. Não consegui. Pensei nos erros do passado, nas escolhas feitas, na imaturidade infantil de uma jovem nem tão jovem assim.

- Mas não se pode voltar atrás nos erros – lembrou-me ele.

- Mas sempre há uma segunda chance – retruquei.

Quis acreditar que aquelas palavras não haviam saído de minha boca apenas por saírem. Pensei na constatação, de fato.

- Todos cometem erros – continuou ele, naquele discurso, agora, clichê.

Eu tentei explicar que as marcas do passado eram muito dolorosas e que não, todas aquelas pessoas tiveram a sua cota de boa vontade da minha parte. E ela já havia se esgotado.

Lembrei então das surpresas diárias, das palavras carinhosas, da vontade manifestada de querer ficar perto o tempo inteiro, das profundas mensagens que enviava dia após dia e da sinceridade de todos os gestos, os menores, então, nem se fala. Era isso que permeava os meus dias e estava me ajudando a prosseguir. Ou seguir.

Neste momento, tive certeza de que estava no caminho certo, afinal, desses atos são feitos os relacionamentos. O passado estará sempre presente no coração. Há de se lembrar das coisas boas. Mas não se deve esquecer das turbulências desnecessárias. De ambos os lados, obviamente.

Lembrei do último filme a que assisti, com a Juliette, da fala de sua personagem, infinitamente repleta de verdade, maturidade e sabedoria.

“Se fossemos indivíduos mais tolerantes às falhas alheias, seríamos indivíduos menos solitários.”

Verdade absoluta. Pensei nisso, timidamente, e optei por seguir em frente, buscando acertar os erros do passado, numa entrega verdadeira, sem amarras. O futuro cabe a mim e a nós decidir, dia a dia. As coisas que valem a pena, não devem ser deixadas para trás.

- Há oportunidades que não voltam mais – finalizou.

Meu coração se alentou, cedi aos pedidos da minha Milk e voltei a dormir. Seja o que Deus quiser.


O amor nunca faz reclamações, dá sempre.

O amor tolera, jamais se irrita e nunca exerce vingança.

Mahatma Ghandi

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A flor do futuro (ou seria À flor do futuro)

O ócio é, para mim, criativo. Há tempo Para escrever, atuar como observadora do mundo e suas realidades, viver com mais intensidade.

A volta ao trabalho, nas últimas semanas, me deixou robotizada. A rotina exaustiva e acelerada se traduz em cansaço, poucas horas de sono e menos tempo Para pensar.

Mas também, a ocupação da mente é a melhor coisa a se fazer quando as dores do mundo estão sobre os seus ombros.

Porque simplesmente, elas ficam em segundo plano, deixam de ser questões prioritárias a serem resolvidas. Nesse sentido, é maravilhoso então, acordar todos os dias, mesmo morrendo de sono, lutar contra a vontade de ficar na cama e se entregar à rotina.

Mais o mais importante de tudo isso é sentir-se produtiva. Eu andei uns tempos aí, angustiada pelo fato de estar dedicando-me somente aos estudos. Estava me sentido improdutiva. Como se produção fosse algo tangível.

Nem penso ser assim, o modo correto de raciocinar. Mas eu estava desse jeito. Ou daquele jeito. Porque não estou mais.

Depois da tempestade, a bonança. Dito popular, sabedoria de primeira. Houve um tempo em que lágrimas, chuva, tristeza e outros males me assombraram. Como assombram os monstros. Tudo parecia cinza, escuro e frio.

Mas como eu já disse milhares de vezes aqui e pela vida, o tempo cura tudo. E a minha cura veio em forma de flor, em forma de bonina. Pequenina e doce, mas forte o suficiente para me fazer enxergar a beleza da vida.

As noites intermináveis de insônia se dissiparam. O coração acelera, agora, por outros motivos. Os momentos adversos não duram para sempre. Duram o tempo suficiente para nos recuperarmos, resgatarmos o que mais de bonito há em nós e sorrirmos sorrisos de todos os jeitos.

Nesse processo, também teve papel importante a felina que habita meu novo lar. Como se percebesse a minha tristeza, soube me dar colo e se achegar ao meu corpo, trazendo calor e alegria. Pequenina, também pediu colo, desde o começo, e a relação que se estabeleceu entre nós é algo sublimar.

Ela me chama, se achega, faz charme, é delicada e fofa, muito fofa. Também ganhei Will, um anjinho em forma de pelúcia que me faz lembrar que não posso deixar de ser anjo, já que essa condição é inerente ao meu ser – colocação essa não posta por mim, mas por outras pessoas que ao longo da caminhada assim me denominaram – e sim, eu tomo posse dela.

Chove lá fora, porque daqui a pouco tempo vai florescer. E todas as sementes plantadas estarão flores lindas e frutos belos. E teremos boninas, flor de jasmim (e sorriso de jasmim, também!), mirra, orquídeas e todas as mais lindas espécies.

Te agradeço minha pequena e grande bonina, por fazer parte da nova história que está sendo escrita. Agradeço pelo carinho, pelos mimos, pelo novo, pelas palavras bem escritas, por tudo que és. “A flor do futuro vai abrir mil caminhos, você vai ver” (Cláudio Zoli)

Me despeço com um sorriso de jasmim. Oxalá nos proteja hoje, agora e sempre.

sábado, 7 de maio de 2011

Carta a um amigo


Querido amigo,

Meu coração sente que a partir deste momento, não mais caminharemos lado a lado. É uma lástima mas nossos ideais não são mais os mesmos e não estamos antenados na mesma sintonia.

Há um abismo entre nós e tudo parece ter se dissipado.Sua atitude desesperada somente serviu Para que eu percebesse com muita clareza o quanto temos a evoluir em termos de relacionamento.

Depois de tanto tempo, união, fraternidade, percebi que temos muito a avançar. Pergunto-me onde errei, onde errastes, onde erramos.

Nesse momento, não encontro respostas nem desejo compreender tudo que se passou.

Estou jogando fora todos os porquês e tenho uma ligeira sensação de que a motivação real de sua ira não tenha sido o que alegastes. A questão me parece muito mais complexa.

Sinto-me triste, ao perceber que nosso castelo ruiu. Sinto-me triste, ao concluir que vivemos momentos ilusórios. Jamais imaginei que algo tão simples não pudesse ser externado e o diálogo não tivesse sido utilizado como meio Para o entendimento.

Diante de tal situação, tenho a lamentar o fato de que mesmo dispondo de tantos meios de comunicação, nos tornamos incomunicáveis. Saber que mesmo nos falando, mesmo que por telefone, ainda assim, tenha havido ruídos de comunicação.

Não sei o que será daqui para frente. O tempo tem cuidado de colocar as coisas no lugar em minha vida. Além disso, tenho compreendido melhor o sentido de tudo isso, das esperas, dos tempos de cicatrização das feridas, da cura dos males.

Lamento se me achas sentimental demais, mas não poderia deixar de expressar meus sentimentos.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Entre arco-íris e flores


Foi chegando assim de mansinho

Leve como a pluma

Doce como açúcar

Menina, menina


Das músicas faz poesia

Sua letras preenchem vazios

Inunda meu ser e traz alegria


Voz de menina, atitude de mulher

Ela sabe o que quer

Não desiste fácil, sonha acordada


Noite e dia ali está

Rosas, palavras, pelúcia de anjo

Me cuida, me aceita

Me faz delirar



Os bons ventos do outono sopraram, enfim. Nesses dias de chuvas, chuviscos e nuvens, mergulho inteira em pensamentos, palavras e ações. Feri, fui ferida. Amei, fui amada. Reflexões correm os dias, pensamentos voam pelo ar.

Teu jeito doce me conquista o ser. Delírios vamos viver. Em meio ao caos, a luz se acendeu. Ou acenderam a minha luz que estava apagada. Me sinto mais leve, tão bom ser cuidada. Conflitos familiares ficam amenos, dores se esvaem, uma alegria contagia meu ser.

Basta acreditar e deixar o universo trabalhar. Não é fácil confiar no amor, depois de tanta dor. A cada dia, um progresso. O tempo tudo cura. O tempo tudo traz. Aprendi que persistir é fundamental quando se deseja muito alguma coisa ou alguém. O Soberano Tempo guardou surpresas nunca antes imaginadas. Desdobrou-se em prazer, alegria, vazio preenchido. Te encanto. Me encantas.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Depois do arco íris, o sol *

*À força de um arco íris, em forma de gente, uma pupila, minha pupila

E a gente vive junto

E a gente se dá bem

Não desejamos mal a quase ninguém

E a gente vai à luta

E conhece a dor

Consideramos justa toda forma de amor

Os momentos de incerteza e de crise são oportunidades preciosas de evolução (I. Mueller). O sofrimento faz a gente amadurecer. Chorei rios de lágrimas entretanto o sol voltou a aquecer o meu coração. O mundo está mais colorido hoje, apesar da chuva que teima em cair lá fora.

Abaixo a tristeza, o desanimo, o desamor. Hoje eu celebro a alegria da vida, a certeza de que sempre após a tempestade é chegada a bonança. Toda a dor dos últimos tempos está indo embora, aos poucos, e o meu coração se alegra por isso. O ciclo finalmente se encerrou.

Tudo que tem que ser vivido será vivido. No tempo certo. As coisas acontecem quando tem que acontecer mesmo. Às vezes, desperdiçamos energia, brigamos com o tempo, somos afobados. Grande erro. É preciso esperar.

Minha pupila, tudo que é nosso, pertence, somente, a nós mesmas. É chegado o momento de ser feliz. Não há mais postergações. Vamos ser felizes e pronto!

A entrada de Sol em Áries me trouxe muitas lembranças, expectativas, preocupações. Mas eu vou recordar essa fase com muito carinho para sempre. O último dia do movimento solar vai ficar marcado para sempre. O despontar do Sol em Touro foi o melhor de todos os tempos. Corpos entrelaçados, riso, satisfação, descobertas, mãos, formas, pele, sentidos, desejos que se realizam.

Que esse novo tempo seja repleto das melhores vibrações, que as esperas durem somente o tempo necessário, que nada mais demore, que a saudade traga alegria com um misto de frio na barriga. Que o carinho, o respeito, a admiração e acima de tudo a amizade reinem em nossos corações.

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No último domingo, deixou o corpo o guru indiano Sathya Sai Baba. Mestre de amor, embaixador da paz no planeta Terra, essa figura magnífica deixou muitos ensinamentos e transformou mentes e corações. Por vezes, estive em contato com sua espiritualidade e deixo aqui o meu agradecimento por contribuir por um mundo melhor, por propagar a mensagem de que todos somos um. Que suas lições continuem a modificar vidas.

“Verdade é aquilo que deve ser dito,

Retidão é o que deve ser praticado,

Paz é o que deve preencher a mente,

Amor é o que deve se expandir dentro de nós e

Não-violência é o que devemos ser plenamente."

Sathya Sai Baba

terça-feira, 19 de abril de 2011

A vida é bonita

"Não tem explicação, explicação não tem. Sem explicação, explicação. Não tem explicação, não tem explicação, não tem não tem" (Na voz da Cássia)

Em alguns momentos da vida, pode-se chegar a implorar o amor, a atenção, uma resposta qualquer que seja àquela carta escrita. Acho que hoje talvez isso seja amenizado depois da película à que assisti.

Tenho andado angustiada, à procura de respostas para interrogações que eu mesma faço, explicações sobre fatos que não deveriam mais ter importância. Mas o amor é importante. O cuidado é importante.

Meu tempo vago tem se resumido a ler os livros, cuidar dos felinos, assistir uns filmes, no vídeo ou no cinema. Nessa onda, fui assistir ao “Biutiful”. Na primeira vez que havia tentado fazer isso, os ingressos haviam esgotado. Dessa vez, consegui.

Foi, sem dúvida o melhor filme dos últimos tempos. A mensagem que eu tirei do filme para minha vida, em especial, nesse dado momento – entre as muitas reflexões que essa projeção me proporcionou – foi de que diante de uma situação, na qual sabe-se que o fim está próximo, tentamos rever as atitudes, mudar posturas incorretas, contribuir para a paz e a harmonia. E mais do que isso tudo, amar. Mas amar a quem nos ama. Tenho vivido esperando por um amor que não virá. Talvez um amor que não tenha acontecido. Apenas uma vã ilusão de amor. Lutando por um sentimento de carinho, mas que talvez nem tenha chegado a ser amor.

Chora daqui, sofre dali, fica à espera de algo que no fundo, sabe-se que não vai chegar, mas não se quer deixar passar.

O protagonista do filme descobre que tem pouco tempo de vida e tenta reverter o jogo, de modo a limpar sua consciência, perdoar os erros das pessoas que ama, não se prender à pequeninices, enfrentar os desmandos do sistema. E Javier Barden faz isso com maestria. Mais uma vez, ele nos apresenta sua arte e emociona. O filme trata da questão existencial da morte, mas também de questões essenciais para se pensar no dia de hoje, como a migração de africanos e asiáticos rumo à Europa, a fim de amenizar as dores sociais de seus países de origem – como se isso fosse trazer tranqüilidade e satisfação.

A vida é tão curta para darmos valor a quem não nos dá valor que não vale a pena gastar energia com isso. Buscamos, procuramos, imploramos, sem ao menos, sequer tocar o coração daquela outra pessoa.

Tento buscar explicações e respostas para o silêncio, entretanto, não encontro. Porque talvez elas não existam mesmo. Melhor é seguir em frente, continuar com o barco a navegar, dessa vez sem paradas, numa viagem ininterrupta, rumo ao sol que brilha. Talvez essa seja a resposta. Há coisas mais importantes nesse momento do que perder tempo esperando por algo que não vai chegar. Minha dores foram amenizadas. Salve, Iñárritu.

Por uma resposta



Sessão nostalgia com intensidade que atravessa o coração, os sentidos, a alma.

Como diria o autor do Poema Sujo, "não quero ter razão, só quero ser feliz!".

Não tenho vergonha de gritar o que sinto. O que eu sinto tem nome e se chama amor.

Hoje eu percebi que a amizade verdadeira transpassa todas as barreiras impostas pela vida. É bom ter um irmão com quem se pode partilhar tudo, das coisas mais simples até as mais complexas. Despir todos os véus, assumir as fraquezas, abrir o coração, ouvir atentamente, doar-se inteiramente, ter a certeza de que tudo isso vai passar.

Muitas vezes não queremos compreender o real sentido das coisas. Nos perdemos ao buscarmos significados que não existem. Explicações que não cabem. Ainda assim, não sossegamos enquanto não temos algumas certezas.

A gente se pergunta porque tudo se dissipou, porque chegou ao fim, quer entendimento do incompreensível, quer respostas quando elas não cabem. Talvez tudo fosse mais simples se não fossemos tão complexos. Talvez tudo pudesse ser mais fácil se sentíssemos menos. Não é fácil abrir mão dos sentimentos.

Não dá para seguir em frente, alçar novos voos, quando não se tem certeza absoluta de que se chegou ao fim. Não há como se abrir para novas pessoas, sentimentos, se ainda existem resquícios do passado. Não há como magoar pessoas maravilhosas que cruzam o seu caminho e te querem bem, te amam e se preocupam, quando não se tem certeza de que se findou.

A gente lê os escritos do passado, olha as poesias inspiradas, não entende como esse sentimento que não tem nome acabou. Não compreende absolutamente nada e quer uma resposta, uma centelha, uma faísca, uma luz qualquer que seja, a fim de trazer alguma iluminação.

A gente se vê escrevendo poesia, refletindo a vida, pensando em como tudo seria, pensando em como tudo será daqui para frente. Não se conforma, não esquece, ao contrário, relembra. Quer fugir, quer saciar essa sede de amor, quer sossegar. E não consegue.

Só resta pedir mais uma vez, que Deus nos abençoe. Iansã nos proteja. Os bons espíritos iluminem.

Que os corações sejam tocados. Deve ser por aí. Assim espero.

Corro contra o tempo

Pra te ver
Eu vivo louca
Por querer você
Morro de saudade
A culpa é sua

Bares, ruas, estradas
Desertos, luas
Que atravesso
Em noites nuas
Só me levam
Prá onde está você

O vento que sopra

Meu rosto cega

Só o seu calor me leva
Numa estrela
Pra lembrança sua...

O que sou?
Onde vou?
Tudo em vão
Tempo de silêncio
E solidão

O mundo gira sempre
Em seu sentido
Tem a cor
Do seu vestido azul
Todo atalho finda
Em seu sorriso nu

Na madrugada

Uma balada soul
Um som assim
Meio que rock'n roll
Só me serve
Prá lembrar você...

Qualquer canção
Que eu faça
Tem sua cara
Rima rica, jóia rara
Tempestade louca no Saara

O que sou?
Onde vou?
Tudo em vão
Tempo de silêncio
E solidão

(Vander Lee)

Image: Nympheas - Claude Monet

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O que há em mim


Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de “minha vida”. Outros fragmentos, daquela “outra vida”. De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector “Tentação” na cabeça estonteada de encanto: “Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível”. Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.

Era isso - aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

(In: Caio Fernando Abreu, Pequenas Epifanias)

domingo, 10 de abril de 2011

Brilho eterno de uma mente sem lembranças




Ela une todas as coisas

como eu poderia explicar

um doce mistério de rio

com a transparência de um mar ?

Ela une todas as coisas

quantos elementos vão lá

sentimento fundo de água

com toda leveza do ar

Ela está em todas as coisas

até no vazio que me dá

quando vejo a tarde cair

e ela não está

Talvez ela saiba de cor

tudo que eu preciso sentir

Pedra preciosa de olhar !

Ela só precisa existir

para me completar

Ela une o mar

com o meu olhar

Ela só precisa existir

pra me completar

Ela une as quatro estações

Une dois caminhos num só

Sempre que eu me vejo perdido

une amigos ao meu redor

Ela está em todas as coisas

até no vazio que me dá

quando vejo a tarde cair

e ela não está

Talvez ela saiba de cor

tudo que eu preciso sentir

Pedra preciosa de olhar !

Ela só precisa existir

para me completar

Ela une o mar

com o meu olhar

Ela só precisa existir

pra me completar

Une o meu viver

com o seu viver

Ela só precisa existir

Para me completar

Image: Arquivo pessoal.

sábado, 9 de abril de 2011

Como esquecer?


Os ventos lá fora prenunciam a chegada do dia esperado. Sexto, de uma espera inalcançável que vai se findar. Meu coração bate acelerado. As janelas também batem forte. Eu não consegui dormir. Vou ter que me dopar. É chegado o dia que eu tanto esperei. Veio assim, de mansinho. Por um breve momento, nos primeiros dias no ano eu vislumbrei uma comemoração. Um vôo de fênix. Eu queria poder esquecer, como se esquecem as datas que não tem importância. Eu queria esquecer como eu esqueço os aniversários mensais de namoro, os momentos significativos de uma relação. Mas eu não consigo esquecer.

Não mais eu lerei Morangos Mofados como eu li aquele dia. Bacco não mais me entorpecerá com suas taças convidativas. Minha dor parece não ter cura. É uma ferida aberta. Perdi as contas das inúmeras vezes que sentei ao divã. Que dormi ao divã. Que chorei ao divã.

Quantas agulhas eu senti nas intermináveis sessões de sábado a fim de amenizar também as minhas dores. Até então, elas nunca haviam doído tanto. Hoje, chegam a sangrar.

Eles me dizem que vai passar. Eles me dizem que vai sarar. Que é passageiro. Mas eu me pergunto até quando. Eu leio os livros, eu faço as preces, eu tenho fé. Não a perdi. Mas eu queria sentir menos essa dor. Na última semana, ela me incomodou demais. Minhas tentativas tem sido inúteis.

A cura não está em outras bocas, corpos ou almas. Não é isso que busco. Não entendo como que uma aproximação virtual tomou tamanhas proporções. Nunca imaginei tal feito. Nunca imaginei que uma tela fria de computador fosse a ponte para a novidade. Não para ti. Acho fraqueza demais. Carência demais. Sabotagem demais.

Até a data da prova coincidiu com a data esperada. É para não esquecer mesmo. Cheguei a pensar na comemoração, num almoço de fim de tarde nas Laranjeiras. Nas partilhas, nas leituras, na poesia que teria sido tema na prova. Talvez um texto do Carpinejar. Talvez uma poesia da Cora. Ou um trecho de Água Viva. Aquelas vibrações só tuas a cada questão acertada. Aos planos diplomáticos futuros. A viagem à Angola. A luta pelas causas mais sensíveis.

As lágrimas rolam e eu me pergunto: “Como esquecer?”.

“Quando eu te vi andava tão desprevenida

Que nem ouvi tocar o alarme de perigo

E você foi me conquistando devagar

Quando notei já não tinha como recuar

E foi assim que nos juntamos distraídos

Que no começo tudo é muito divertido

Mas sempre tinha um amigo pra falar

Que o nosso amor nunca foi feito pra durar

Por mais que eu durma, eu não descanso

Por mais que eu corra, eu não te alcanço

Mas não tem jeito eu não sei como esperar

Desesperar também não vou

Não vou deixar você passar

Como água escorrendo nos dedos

Fluindo pra outro lugar

Ninguém pode negar que o nosso amor é tudo

Tudo que pode acontecer com dois bicudos

Não são tão poucas as arestas pra aparar

Mas é que o meu desejo não deseja se calar

Até os erros já parecem ter sentido

Não sei se eu traí primeiro ou fui traído

Não te pedi uma conduta exemplar

Mas é que a sua ausência é o que me dói no calcanhar

Por mais que eu durma eu não descanso

Por mais que eu corra eu não te alcanço

Mas não tem jeito eu não sei como esperar

Desesperar também não vou

Não vou deixar você passar

Como água escorrendo nos dedos

Fluindo pra outro lugar

Será sempre será

O nosso amor não morrerá

Depois que eu perdi o meu medo

Não vou mais te deixar”

(Dois bicudos – Ana Carolina)