
- Porque você despertou tão cedo? Ainda são 4 A.M.? – perguntou o coelho.
-Eu perdi o sono. Rolei na cama, não consegui voltar a dormir. – expliquei.
- Mas a essa hora todos dormem. Você não diz sempre que necessita do sono reparador? – quase me censurando.
- Sim, eu já disse isso, alguma vezes, mas em outras a insônia me toma de assalto. Além disso, nem todos dormem. Não ouves os sinos lá fora, a badalar?
- Sim, são os sinos da capelinha. Acho que eles acordam as freiras do colégio.
- Engraçado, vivo aqui há tanto anos e nunca havia ouvido este som.
-O que te preocupas? – perguntou-me, com sabedoria ímpar – São problemas?
Respondi que não. Agora finalmente as coisas estavam voltando ao lugar. Não entendi a perda súbita do sono, especialmente na noite fria e escura.
Pensei nas possibilidades, nos jogos da vida, nas trapaças.
Nesse momento, uma felina de olhos azuis se aproximou, como se me indagasse, também, porque sua dona estava insone. Aproximou-se o máximo que pode, pediu carinho e se aninhou ao meu braço, ficando debruçada sobre a tela.
Ainda tentei buscar motivos e explicações. Não consegui. Pensei nos erros do passado, nas escolhas feitas, na imaturidade infantil de uma jovem nem tão jovem assim.
- Mas não se pode voltar atrás nos erros – lembrou-me ele.
- Mas sempre há uma segunda chance – retruquei.
Quis acreditar que aquelas palavras não haviam saído de minha boca apenas por saírem. Pensei na constatação, de fato.
- Todos cometem erros – continuou ele, naquele discurso, agora, clichê.
Eu tentei explicar que as marcas do passado eram muito dolorosas e que não, todas aquelas pessoas tiveram a sua cota de boa vontade da minha parte. E ela já havia se esgotado.
Lembrei então das surpresas diárias, das palavras carinhosas, da vontade manifestada de querer ficar perto o tempo inteiro, das profundas mensagens que enviava dia após dia e da sinceridade de todos os gestos, os menores, então, nem se fala. Era isso que permeava os meus dias e estava me ajudando a prosseguir. Ou seguir.
Neste momento, tive certeza de que estava no caminho certo, afinal, desses atos são feitos os relacionamentos. O passado estará sempre presente no coração. Há de se lembrar das coisas boas. Mas não se deve esquecer das turbulências desnecessárias. De ambos os lados, obviamente.
Lembrei do último filme a que assisti, com a Juliette, da fala de sua personagem, infinitamente repleta de verdade, maturidade e sabedoria.
“Se fossemos indivíduos mais tolerantes às falhas alheias, seríamos indivíduos menos solitários.”
Verdade absoluta. Pensei nisso, timidamente, e optei por seguir em frente, buscando acertar os erros do passado, numa entrega verdadeira, sem amarras. O futuro cabe a mim e a nós decidir, dia a dia. As coisas que valem a pena, não devem ser deixadas para trás.
- Há oportunidades que não voltam mais – finalizou.
Meu coração se alentou, cedi aos pedidos da minha Milk e voltei a dormir. Seja o que Deus quiser.
O amor nunca faz reclamações, dá sempre.
O amor tolera, jamais se irrita e nunca exerce vingança.
Mahatma Ghandi
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