quarta-feira, 27 de julho de 2011

Pro sol nascer de novo


-Vocês cuidem bem uma da outra, na minha ausência.

A voz do outro lado da linha estava serena e clara o suficiente para eu compreender que tudo estava realmente bem. O nosso mano do coração, embora mais distante fisicamente, continuava a ser a mesma pessoa zelosa e carinhosa de sempre. Também admirava a nossa amizade, achava bacana a proximidade entre mim e ela.

Eu já estava deitada, quando ouvi a chave rodar na porta e seus passos caminharem até o meu quarto. Era ele, ao telefone.O curto diálogo foi o suficiente para me deixar reflexiva e nostálgica.

Lembrei de cenas, momentos vividos. Lembrei dos nossos finais de semana em casa, cozinhando, tomando cerveja, batendo papo, ouvindo Candeia, Gonzaguinha e Janis Joplin. Me deu a maior saudade.

Lembrei das nossas andanças pela cidade, da Lapa ao Arpoador. Da Tijuca a Niterói. Lembrei com saudade do velho ateliê em Santa Tereza. Do samba da Pedra do Sal, sempre almejado, nunca realizado. Dos planos Para Ibitipoca. Mas, mais do que isso tudo, lembrei do quanto eu e ela éramos tão próximas e o quanto estávamos tão distantes.

Em nossa querida casa, antes não havia paredes entre nós. Era como se todos os aposentos fossem um só. Mas agora não. Estávamos afastadas, as paredes a nos separar e colocar limites e espaços. Agora as portas estavam trancadas. Era cada uma por si.

Lembrei com carinho da irmã de antes. Lembrei de como ela era doce e nada amargurada. Lembrei de como era espirituosa, bicho grilo, tranquila. Hoje seu ar era mais pesado. Estava cansada demais, era nítido. Alma cansada, corpo cansado. Incômodo indisfarçável nos olhos, no rosto. Carregava consigo um ranso que parecia não fazer parte de sua pessoa. Já não mais a reconhecia em certas atitudes e posições.

Pensei novamente nas palavras dele. Elas fizeram nascer em mim outras palavras. Interrompi meu sono, levantei da cama e sentei à escrivaninha. Era preciso reverberar meus sentimentos depois de tanto tempo.

Resolvi dar mais uma chance a mim e a ela e meus incômodos começaram a se dissiparem. Eu tentaria mais uma vez uma aproximação. Segundas chances são necessárias.

Escrevi meu texto e fui dormir tranqüila. Amanhã o sol nasceria outra vez, trazendo os bons ventos que sopravam amor, serenidade e amizade.

Então eu percebi o quanto aquele mano era importante para mim, para nós, e senti uma vontade doida de fazer mais uma daquelas velhas reuniões regada a música, alegria, cinema, fotografia e discussões políticas e pacíficas.

Pude experimentar, mais uma vez, o quanto a vida é linda e o quanto devemos tornar inesquecíveis cada momento. Que seja doce! - parafraseando Caio F.

“Mas é claro que o sol vai voltar amanhã”

(Renato Russo)

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