
Os ventos lá fora prenunciam a chegada do dia esperado. Sexto, de uma espera inalcançável que vai se findar. Meu coração bate acelerado. As janelas também batem forte. Eu não consegui dormir. Vou ter que me dopar. É chegado o dia que eu tanto esperei. Veio assim, de mansinho. Por um breve momento, nos primeiros dias no ano eu vislumbrei uma comemoração. Um vôo de fênix. Eu queria poder esquecer, como se esquecem as datas que não tem importância. Eu queria esquecer como eu esqueço os aniversários mensais de namoro, os momentos significativos de uma relação. Mas eu não consigo esquecer.
Não mais eu lerei Morangos Mofados como eu li aquele dia. Bacco não mais me entorpecerá com suas taças convidativas. Minha dor parece não ter cura. É uma ferida aberta. Perdi as contas das inúmeras vezes que sentei ao divã. Que dormi ao divã. Que chorei ao divã.
Quantas agulhas eu senti nas intermináveis sessões de sábado a fim de amenizar também as minhas dores. Até então, elas nunca haviam doído tanto. Hoje, chegam a sangrar.
Eles me dizem que vai passar. Eles me dizem que vai sarar. Que é passageiro. Mas eu me pergunto até quando. Eu leio os livros, eu faço as preces, eu tenho fé. Não a perdi. Mas eu queria sentir menos essa dor. Na última semana, ela me incomodou demais. Minhas tentativas tem sido inúteis.
A cura não está em outras bocas, corpos ou almas. Não é isso que busco. Não entendo como que uma aproximação virtual tomou tamanhas proporções. Nunca imaginei tal feito. Nunca imaginei que uma tela fria de computador fosse a ponte para a novidade. Não para ti. Acho fraqueza demais. Carência demais. Sabotagem demais.
Até a data da prova coincidiu com a data esperada. É para não esquecer mesmo. Cheguei a pensar na comemoração, num almoço de fim de tarde nas Laranjeiras. Nas partilhas, nas leituras, na poesia que teria sido tema na prova. Talvez um texto do Carpinejar. Talvez uma poesia da Cora. Ou um trecho de Água Viva. Aquelas vibrações só tuas a cada questão acertada. Aos planos diplomáticos futuros. A viagem à Angola. A luta pelas causas mais sensíveis.
As lágrimas rolam e eu me pergunto: “Como esquecer?”.
“Quando eu te vi andava tão desprevenida
Que nem ouvi tocar o alarme de perigo
E você foi me conquistando devagar
Quando notei já não tinha como recuar
E foi assim que nos juntamos distraídos
Que no começo tudo é muito divertido
Mas sempre tinha um amigo pra falar
Que o nosso amor nunca foi feito pra durar
Por mais que eu durma, eu não descanso
Por mais que eu corra, eu não te alcanço
Mas não tem jeito eu não sei como esperar
Desesperar também não vou
Não vou deixar você passar
Como água escorrendo nos dedos
Fluindo pra outro lugar
Ninguém pode negar que o nosso amor é tudo
Tudo que pode acontecer com dois bicudos
Não são tão poucas as arestas pra aparar
Mas é que o meu desejo não deseja se calar
Até os erros já parecem ter sentido
Não sei se eu traí primeiro ou fui traído
Não te pedi uma conduta exemplar
Mas é que a sua ausência é o que me dói no calcanhar
Por mais que eu durma eu não descanso
Por mais que eu corra eu não te alcanço
Mas não tem jeito eu não sei como esperar
Desesperar também não vou
Não vou deixar você passar
Como água escorrendo nos dedos
Fluindo pra outro lugar
Será sempre será
O nosso amor não morrerá
Depois que eu perdi o meu medo
Não vou mais te deixar”
(Dois bicudos – Ana Carolina)
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