Sempre achei bacana o fato da nossa língua portuguesa ter uma palavra especial em seu vocabulário, sem qualquer correspondente em outros idiomas.
Além de ser bonita, ela tem uma sonoridade: “saudade”, “sau-Da-de”, “saudade”...fico aqui repetindo e percebendo os fonemas, as entonações que minha boca faz, a sintaxe, a cor, o sabor, o som. Palavra gostosa de falar, palavra gostosa de sentir.
Costumamos sentir saudades de momentos especiais vividos, de pessoas especiais que passaram por nossas vidas, de outras, que estão geograficamente longes. Esses dias, ouvi uma frase que dizia que “a gente só lembra daquilo que esqueceu”. Discordo totalmente.
Não vivo em nostalgia, mas, sim, tenho momentos em que lembro com muito carinho de coisas que não vivo mais, entretanto, já vivi antes, e não esqueci. Lembro e sorrio do que se foi, lembro e produzo reflexões profundas sobre o significado daquele Ali e Agora, eternizados para sempre, dos quais nunca mais vou esquecer.
Quando penso em saudade, penso nas coisas boas, nas coisas ruins também, em tudo aquilo que eu já possa ter passado que contribuiu para que eu me tornasse a pessoa que sou hoje. Pensei em saudade e lembrei do meu primeiro beijo. Senti saudade do sentimento do “novo” que invadiu o meu ser naquele momento. Lembrei do nosso querido Dudu que se foi precocemente quando eu estava saindo da adolescência e aprendendo a lidar com as primeiras dores reais da vida adulta. Quando se começa a descobrir coisas que o olhar inocente enxergava e não via. Lembrei do meu primeiro namorado e seu choro apaixonado a cada vez que sentia a tal “saudade” ; eu não compreendia isso bem. Também lembrei-me, do cheio de arruda e guiné, nas rezas de minha avó que perpassaram toda a minha infância. “Contra mau olhado e quebranto”, ela me explicava.
Ao pensar em sobre o meu próximo texto para este “movimento & inspiração” que pretendo fazer, senti saudade do meu primo querido, que está a alguns milhares de quilômetros de distância e de como é bom sentir a presença dele, quando estamos cara a cara, nos olhando, nos compreendendo, aprendendo um com o outro. Então, lembrei –me de uma definição, lida em algum lugar, que diz que “saudade é a presença na ausência”. Ela consegue definir o meu sentimento de saudade. Em relação ao meu primo, a minha avó – hoje em outro plano – e toda sua sabedoria independente da escolaridade, ao Dudu e tantas outras pessoas e momentos que vivi.
É bom relembrar a infância, sentir saudade de tudo que se foi. Dos domingos na feira com meu pai, comendo queijo ralado na hora, dos bolões de figurinhas que ele comprava para mim e minha irmã, dos passeios com minha mãe, das viagens em família para Angra.
É bom, também, relembrar as dificuldades passadas e sentidas, da queda e do coice, do bullying no colégio, da maturidade alcançada precocemente, das perdas afetivas e emocionais, das perdas de entes queridos, que eu pensara serem imortais.
Penso que a saudade é essencial para sermos o que somos hoje e depois e depois...
Lembrar do que se foi, ser invadido por um sentimento gostoso, de tudo que se foi e não volta mais. A palavra constante da “última flor do Lácio” que consegue expressar esse sentimento inexplicável que eu sinto aqui em meu peito e você sente também, com certeza. Quase sempre.
Leva a pensar nos progressos que fizemos, nas conquistas realizadas, nas perdas necessárias ao nosso aprimoramento, nas dificuldades. Tudo isso eu não quero esquecer. Reitero: foram essenciais para eu ser quem eu sou.
Despeço-me, com saudades dos cheiros, sons, sabores inerentes a cada época da minha vida. Cada um, especial e inesquecível ao seu tempo, cada tom de cada música que eu escutei. Sim, ela me ajuda a lembrar de muita coisa que passou e eu havia guardado lá no fundinho da memória, para recordar, na ocasião oportuna. Hoje eu fiz isso.
Imagem: Arquivo pessoal.

