quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A vida é doce?

Acordei com suores, angustiada. Lá fora, os primeiros sinais do alvorecer. Pássaros de cantos diversos fazem uma sinfonia da natureza. Não dormi as minhas oito horas almejadas. Talvez quatro seja um bom número. Tentei não lembrar as coisas que ele me orientou, continuei a revirar-me na cama, sem vontade de fazer nada. São as minhas horas de sono. Mas meu corpo não tem me respeitado. Sim, isso é um estado passageiro. Daqui a pouco, tudo vai voltar ao normal.

Ontem, ouvi um choro desesperado, do outro lado da linha. Uma voz que ansiava por outra voz, de alento. Tenho tentado manter a serenidade em meio ao caos. Por que parecemos equilibrados, quando na verdade, estamos anestesiados de tanto sofrimento? Lágrimas represadas, continuo meu movimento. Quero seguir em frente. Também quero força. Preciso dela para continuar, afinal.

Alguém me condenou por eu ser assim, mas eu sempre estou preocupada em acolher bem a quem eu amo. Mas que problema há nisso? Em me doar a quem precisa de mim? É porque existem limites. Sim, eu sei. Mas não estou conseguindo mudar o padrão.

Cocoricó. Tem uma galinha solitária lá fora. Sinto-me solitária que nem ela. Ela se expressa de lá, eu me expresso daqui. Mas quem estará a me ouvir? Sinto um gosto amargo na boca. Será o gosto do fel? Cocoricó. Pensamentos rondam minha cabeça. Eu quero fugir de mim mesma. No que eu me tornei? As horas estão passando e nada. O dia já começa. Mais um dia.

Os questionamentos de ontem me deixam perdida agora. Mas eles são necessários. Para aprender a crescer, é preciso sofrer. Mesmo que você só perceba isso depois que tudo passou. Está pronto. Agora você já fez tudo errado. Está feito.

Acho que o Pitoco me ouviu. Alguém nesse mundo vazio me percebeu. Ele está achegado a mim, me olhando, olhos azuis, fixos. Ele também quer carinho. Todos queremos. Paro um pouco e faço carinho. Preciso mudar, para modificar o meu redor. Cocoricó, ela continua.

Fique bem, meu bem. Tudo vai dar certo. Eu acredito em você. Vou te ver chegar até lá. Cantaremos, vitoriosas. A noite, tomaremos vinho chileno, aquele seu, que você guardou a garrafa com tanto carinho. No dia seguinte, caminharemos até aquele parque e encontraremos o Eloi. Dessa vez, vamos ler os livros que levamos, meditar, olhos fechados. Não falaremos de Martha. Falaremos de nós três. Tudo estará tão mudado, após tanto tempo. As setas estavam na direção correta? Conseguimos achar o caminho? Será que ele ainda vai nos ensinar a subirmos sobre nossas colunas? É para aliviar as dores do mundo, dos fardos pesados que carregamos? Espero que sim. Quando eu olho pra ele, lembro do meu primo.

Depois de descermos as colinas, comeremos aquela sua comida preferida, que você me ensinou a apreciar também. Caminharemos até a galeria de arte para ver as fotos da nova exposição. Eu amo aquelas fotografias. Vamos levar o Eloi também. Penso que ele vai gostar.

Vou ficar imensamente feliz pela tua visita. Agenda lotada agora. Muitos compromissos de ambos os lados. Pra terminar, podemos ver o por do sol no Arpoador, que nem o Cazuza fazia. Cada uma vai falar em voz alta seu trecho preferido, ou, o que vier a cabeça, na hora. Vamos saudar Iemanjá e pedir sua proteção. Agradecer a Deus por ter nos guiado até aqui. Por termos mantido a lucidez. Ao fim do dia, tudo estará bem, sem vãs preocupações. Quero acreditar que um dia elas terão fim. Mas não sei se acredito muito. Depois disso tudo, eu vou poder dormir as minhas oito horas sem interrupções e acreditar que o futuro era certo.

Ao som de Erik Satie, pra lembrar o Caio. Sempre.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Recomeçar


Madrugada adentro, perco-me de mim mesma. O Kadu me disse para não deitar e rolar, mas para ir fazer qualquer coisa que seja. Levanto, pego o computador e começo a escrever.
Dias adentro, madrugadas afora, aqui estou, mais uma vez, pensando nos casos e acasos da vida. Nos encontros e desencontros. É preciso se perder para se encontrar. Acho que já li essa frase em algum lugar.
Pensamentos me tomam a cabeça. Meu movimento precisa ser progressivo, um dia de cada vez, um momento de cada vez, um passo de cada vez.
Me perdi nas certezas absolutas do futuro. Me perdi nas tentativas não feitas, nas coisas não ditas, nos planos que nunca saíram do papel. Me perdi ao acreditar nas pessoas, nas mentiras travestidas de verdade, no achar que o mundo é bom, coisa e tal, é preciso sempre dar um chance, tentar outra vez. E eu tentei. E foi em vão.
Meus olhos me olham arregalados, perplexos, diante da figura gélida, fria, que me tornei. Muitas vezes, não há mais espaço para a luz. A luz refletida um dia. Eles me reprovam, como se dissessem você está errada, não se perca no agora, há uma vida logo a frente, ou, fragmentos dela. Mas há. Há vida lá fora ainda.
O sol está lá fora, basta olhar. As portas estão abertas, pode acreditar. Anteontem eu bebi whisky e fumei cigarros de bali, pensando em como seria daqui pra frente. Eu chorei lágrimas amargas e dolorosas, como eu prometi nunca mais chorar.
Eu lembrei do Caio, do Renato, da Clarice. Cantarolei “como é que se diz eu te amo”. A esperança me tomou, por momento. Mínimo que seja.
Já não me recordo de mais nada. Desejei esquecer de tudo. E do muito que ainda resta, ainda estou aqui, a mergulhar nos sonhos que um dia eu tive e descobri serem castelos de areia.