Já não vou mais ver o teu sorriso na varanda e a tua
empolgação toda vez que eu sair a trabalhar numa manhã de quinta-feira. É ciclo
que se encerra.
Não verei mais teus olhos de compaixão cada vez que
sair pelas portas da fortaleza da 18, a se preocupar com meu dia, com meu
futuro, com a tua filha.
Cresci, tenho convicção. Mas para você, permaneço
menina. Enquanto te contemplo, percebo que talvez essa cena não vá mais se
repetir e não vou ouvir seu chamado na varanda, só para reiterar a despedida,
feita ainda em casa pouco antes de sair, após o café.
Não vou esquecer esses teus lindos olhos de amor,
guardados agora para sempre, em minha memória.
No caminho até o ônibus, encontro um deficiente visual
e penso que ele não verá, nem contemplará através da visão, a despedida de seus
filhos.Um momento repleto de emoção e de significados. Esse que você acabou de
experimentar.
E sou imbuída dos melhores sentimentos de gratidão
pelos nossos sentidos, todos eles em perfeito funcionamento. E sim, agradeço
pela minha e pela tua oportunidade de enxergar com os olhos, janela da alma,
enquanto muitos não podem ver.
Mais uma vez, vem o universo e mostra que reclamamos
demais. Nunca estamos satisfeitos o suficiente. Perdemos tempo com futilidades.
Não encontrei o cego homem por acaso.
Plena convicção do amor
“I see you” – Lembrei do filme “Avatar” – Quando o termo em inglês “see”
(na tradução livre: ver, enxergar, olhar)
é empregado no sentido de perceber o outro, de olhar o outro de forma densa,
através da alma. Isso é tão lindo.
E eu te vejo, mãe. E te percebo. Do mesmo modo, você
faz o mesmo. Você me enxerga além do olhar, atinge a minha alma.
Aquela quinta-feira em que me despedi de você, trouxe
a certeza de que momentos singulares não voltam. Que frações de segundo alteram
o resultado final. Que nada mais será do mesmo modo. Parecido, talvez.
Semelhante, nunca.
Você já não me virá sair desse edifício com
frequência. Eu já percebi que está doendo, sensível que você é. Afinal, somos
grandes parceiras.
Mas estarei aqui sempre, meu amor primeiro, minha
vida. Quase totalmente desprovida de preconceitos e amarras que não permitem o
equilíbrio familiar, sou grata, minha querida, por ter você plenamente comigo,
lutando por mim, defendendo e até me surpreendendo.
Não haverá mais despedidas antes do trabalho, nem o
seu café mineiro todas a manhãs. Mas vai sobrar amor. Em forma de beijos e
abraços apertados quando eu te reencontrar. Através das ligações diárias e
muitas, que vamos fazer mutuamente.
Te amo desde o ventre. Ontem, hoje e amanhã. Te amo
após o desligamento da matéria. Sabemos que nada acaba com a morte. Apenas é o
começo de tudo. Quando não estivermos mais juntas, fica a certeza do reencontro
após o desencarne. Você não tem noção do quando isso me consola.
Te amo, filha de Alzirinha.

