Poeminho do Contra
Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!
(Mário Quintana, in Prosa e Verso, 1978)
Para Kika, com amor
Hoje acordei pensando nos tempos de infância. Nessa época da vida, temos muitos desejos de ordem material, nem sempre atendidos por nossos pais, tios, amigos da família.
Lembrei das muitas vezes que manifestei a vontade de ter um brinquedo, um objeto qualquer que fosse, na altura dos meus primeiros anos e, quando não realizadas, culminavam em abrir o berreiro, outras, em me conformar, depois de levar um papo reto com explicações vãs dos meus pais ou de quem estivesse cuidando de mim. E ainda tinha outras vezes, em que eu podia ansiar por algum objeto não compatível com a minha idade de criança, mas que eu queria muito, porque queria, por ter, sem explicações.
Recordei-me então, da tia mais presente nas minhas memórias de infância, alguém que muito acrescentou a minha formação acadêmica, mas, principalmente, como pessoa.
Eis que no ano de 1994, aos meus dez anos de idade, estava na casa da minha avó, onde essa tia também morava e percebi que ela havia comprado algumas agendas para presentear. Chamaram-me atenção, aquelas capas vermelhas, eu adorava agendas – tive muitas ao longo desses 2.7, inclusive, algumas delas guardadas até hoje – e o conteúdo da agenda, algo novo para mim. Era uma agenda especial em comemoração ao genial poeta Mario Quintana.
Porque uma criança de dez anos deseja uma agenda de adulto, especial Mário Quintana? Eu não pedi. Fiz que nem criança. Fiquei namorando a agenda, acho que perguntando para minha tia o que era e o porquê daquela agenda comemorativa, mas não tive coragem de pedir. Nem me senti no direito de pedir. Ela continha frases, citações, trechos da obra do autor ou mesmo as poesias inteiras. Fiquei fascinada com aquilo. Era uma novidade para mim.
No fim das contas, acho que no fim do dia, já na hora de ir embora e certa de que eu não seria uma das prestigiadas , minha tia dirigiu-se até mim e para minha satisfação, me deu a agenda especial do Quintana.
E foi assim, que esse querido autor entrou em minha vida, tenros dez anos de idade e ficou para sempre. Sua literatura se faz presente aqui até hoje e quando visitei Porto Alegre, tive a oportunidade de conhecer o quarto de hotel onde Mário Quintana viveu seus últimos dias. Fascinada, lembro ainda hoje, da cama arrumada, do maço de Carlton sobre a escrivaninha, do par de óculos ali deixados e dos livros a compor o ambiente.
Agradeço a minha tia por satisfazer a minha vontade infantil. Com seu gesto, inclusive com dedicatória na agenda (até hoje guardada), iniciou-me no caminho das letras brasileiras, antes, para mim, pertencentes ao universo adulto e apresentou-me ao Mário Quintana. Ali, a partir daquele instante, tive a oportunidade de passear por suas palavras e compreender a simplicidade e ao mesmo tempo, a erudição de um gênio da literatura brasileira.
Daquele meu desejo infantil, descabido e olho grande, satisfeito por uma tia que sabia lidar com crianças, tinha psicologia e pedagogia para isso, educadora que é, ela me deu um presente que não tem valor material, um presente que vou levar comigo a vida inteira.
"Olho em redor do bar em que escrevo estas linhas.
Aquele homem ali no balcão, caninha após caninha,
nem desconfia que se acha conosco desde o início
das eras. Pensa que está somente afogando problemas
dele, João Silva... Ele está é bebendo a milenar
inquietação do mundo!"
Blog Image: Caricatura encontrada em navegação intergaláctica
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