Segunda-feira acordou triste.
Há tempos a inspiração não vem. Ou vem e eu não escrevo. Falta mais vontade, falta mais doçura, para adoçar a vida.
É bom sair pra dançar, rever amigos, encontrar um amor do passado. Ouvir o Chico sendo interpretado por belas vozes femininas, numa apresentação seleta. Ver fazer 18 anos, aquele bebezinho que você colocou no colo, quando ainda era uma menina. Perceber quanto tempo passou, lembrar de tudo com saudade. Sentir falta de alguém e chorar sozinha. Mas isso tudo é tão efêmero.
Hoje cheguei no trabalho e o nosso gatinho estava desaparecido. Eu amo os animais. Eles me trazem mais alegria do que os humanos. Não por acaso, estava subindo as escadas e avistei um corpinho em meio a alguns escombros, numa laje abandonada. Era ele. Pensei que estivesse morto. Ao me aproximar, estava com os olhos abertos, clamando por socorro. Surtei. Sim, eu surtei. Não consegui represar minhas emoções. Que situação. Que barbaridade. Que tristeza. O peito dói. O órgão vital sangra, com a faca na carne.
Levamos a uma clínica. Primeiro diagnóstico: a temperatura do corpo estava abaixo de 20 graus. Hipotermia + Pneumonia aparente.
Daqui a alguns minutos, se a temperatura elevar, podemos ter esperança de melhora.
Aguardo ansiosa...
A letra abaixo está na cabeça, depois da inesquecível interpretação daquela força de mulher que é Margareth Menezes.
Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim
Não me valeu
Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim!
O resto é seu
Trocando em miúdos, pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
As marcas de amor nos nossos lençóis
As nossas melhores lembranças
Aquela esperança de tudo se ajeitar
Pode esquecer
Aquela aliança, você pode empenhar
Ou derreter
Mas devo dizer que não vou lhe dar
O enorme prazer de me ver chorar
Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago
Meu peito tão dilacerado
Aliás
Aceite uma ajuda do seu futuro amor
Pro aluguel
Devolva o Neruda que você me tomou
E nunca leu
Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde.
(Chico Buarque/Francis Hime)
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