
A astrologia já estava me preparando para o que viria. “Mudanças irreversíveis; hora de deixar para trás os velhos padrões, virginiano”. Parecia uma ladainha, quase todos os dias a mesma coisa. E eu lia e relia as previsões, tentando fazer com que as palavras se tornassem um mantra, tentando fazer com que elas pudessem adentrar em mim, quase que por osmose. Por repetição. Aliteração.
Eu estava esperando o momento que demarcaria definitivamente o fim dessa relação que já havia terminado, mas à qual ainda, eu estava atrelada. Términos são sempre complicados e dolorosos demais para mim. Até que hoje, ele chegou.
Eu já havia me libertado das correntes mais pesadas. Mas restava ainda uma algema, que me prendia apenas a uma das mãos.
Adeus aos nossos filmes, livros, poesia, almoços e jantares, trocas partilhadas. Adeus definitivo ao sonho de sermos mães um dia, de viajarmos para bem longe a explorar mares nunca dantes navegados. Adeus amor sublime, sexo transcendental, colchões ardendo de amor, suor e lágrimas de prazer. Adeus meu amor, porque eu estou indo embora.
O barco vai me levar mais longe ainda. A noite em claro, a falta de sono, o desespero a cada chamada não atendida, ontem, prenunciaram o estado de abandono em que me encontro agora. A tristeza que me tomou a alma e faz chorar compulsivamente enquanto escrevo, seco lágrimas e escrevo, choro, novamente volto a escrever, vai passar.
Choro porque sinto. Choro por tudo que se foi. Por ter certeza de que aquelas novas poesias eram de verdade e não apenas ficção como você me levou a crer. “O poeta é um fingidor”, o Drummond disse e você me repetiu. Você queria me poupar. Mas não há como poupar os outros de certos fatos. Choro porque as coisas chegaram ao fim para mim somente hoje, nesta segunda-feira triste, depois de um final de semana não menos triste, mas cercado de loucura.
Eu não te procurei em outros braços, bocas e corpos. Porque eu sempre soube que não te acharia neles. Eu sempre, isso sim, preservei esperança de que um dia tudo pudesse voltar a ser real. Ou que eu pudesse novamente mergulhar nesse sonho bom que eu tive junto a você.
Mas “chega de repetir velhos padrões, virginiano”. Sim, eu também acho. Chega. Ponto. Acabou. Mas meu pobre coração chora porque acabou. Mas saiba que estou aliviada. Eu posso voltar a dormir tranqüila. Você já tem um outro alguém e isso te traz alento e a mim também, porque sei que não está desamparada.
Mas chegou ao fim as não vãs preocupações de minha parte, com a sua comida, com a sua doença, com a sua cura, com os seus remédios do corpo e da alma. As lembranças são muitas, você sabe. E quando revejo as nossas fotografias eu sorrio ao nos ver ali, lindas, unidas, sorrisos, amor.
É isso que eu quero guardar da gente, Menina Rosa. Eu não sei como vai ser amanhã e depois e depois. Hoje eu choro, mas porque é necessário. Não tenho fome, nem sede, nem força. Não tenho cabeça para estudar. Mas eu vou ficar bem. Deixa eu ir agora porque eu vou encontrar aquele moreno alto e lindo que você adora e que me coloca no colo sempre que eu preciso. Você sabe que ele vai cuidar de mim. “Cuide bem do seu amor, seja quem for”. Herbert Vianna disse e tenho dito. Adeus.
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